Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Francisco e Bento XVI: um encontro histórico.

ReligionenLibertad.com

Francisco e Bento XVI: um encontro histórico

O Papa emérito fez compreender que esta proximidade física do sepulcro de Pedro é um sinal de que certamente não deixa a Igreja, que continua trabalhando para ela

Vittorio Messori- 23 março 2013-religionenlibertad.com

Nestas semanas houve um grande uso (e às vezes abuso) dos adjetivos “histórico” e “memorável”.

Mas o evento de hoje merece um pouco de ênfase: o encontro – e em um clima que será certamente de grande fraternidade – entre o Papa reinante e o emérito é totalmente inédito.

Como tem sido repetido várias vezes nestes tempos, não tem faltado exemplos antigos de “renúncia papal”, mas em séculos turbulentos, com episódios que ficaram marcados na luta entre papas e antipapas.

O único precedente assimilável que começou em 11 de fevereiro passado é o de Celestino V. O qual certamente não teve abraços com seu sucessor: com efeito, Bonifácio VIII se preocupou em neutralizar o renunciante, temendo que revogasse sua abdicação.

O resultado final – depois de fugas por terra e por mar – foi que o ex-Papa Pietro da Morrone terminou seus dias, aos 86 anos, em uma cela, não de um monastário mas de uma fortaleza onde estava preso.

Nada a ver, então, com o encontro previsto para hoje em Castel Gandolfo. Provavelmente não saberemos nada salvo, quem sabe quando, pelos diários póstumos de Joseph Ratzinger ou de Jorge Mário Bergoglio.

E no entanto, assistir a esta encontro sem precedentes estaria entre os desejos mais vivos não só de todo cronista mas também de todo historiador da Igreja.

O arcebispo de Buenos Aires foi elevado a cardeal no Consistório de 2001, portanto por João Paulo II.

Porém é certo que, sobre sua eleição, pesou a indicação do então Prefeito para a Doutrina da Fé: Ratzinger apreciou muito que Bergoglio esteve entre os poucos jesuítas sul americanos que não aprovaram as perspectivas dos teólogos da libertação.

O encontro atual, portanto, não será entre um “conservador” e um “progressista” – como quer a simplista leitura ideológica – mas entre dois servidores da Igreja, conscientes de que há diferença entre caridade cristã e luta de classes, entre homilia religiosa e manifesto político, entre sacerdote de Cristo e guerrilheiro.

Não será tampouco um encontro entre um “jovem” e um “ancião”: Bergoglio tem quase a mesma idade de seu precedessor quando foi eleito.

Conhecendo a delicadeza do homem Ratzinger, tem que crer que se absterá de conselhos, limitando-se em todo caso a chamar a atenção sobre questões que ficaram sem resolver.

Fala-se de uma sorte de pró-memória reservada, preparada por Bento XVI para quem, depois dele, levaria a pesada carga de Pedro. Pode dar-se, mas é de supor que, inclusive neste caso, a intenção foi informativa e não, como dizer, pedagógica, como se o novo Pontífice tivesse necessidade de ser guiado.

O Papa agora emérito disse com clareza, antes de sua despedida: sua intenção era “desaparecer da vista do mundo”, continuar servindo a Igreja com a oração e não com uma, se bem discreta, colaboração no governo da Igreja.

Certamente, ainda fica a pergunta que muitos se fazem: permanecer no “recinto vaticano” não torna mais difícil este propósito de ocultamento?

Devo dizer que, mesmo não esperando, ao menos por agora, a decisão da “renúncia”, várias vezes tinha refletido sobre qual poderia ser o refúgio de um eventual Bento XVI obrigado pela idade e pelo peso dos problemas ao deixar seu serviço.

Instintivamente pensava, em primeiro lugar, em um retorno à sua Baviera, onde – em lugares magníficos, sempre com bosques rodeados de altas montanhas – sobrevivem abadias ainda habitadas por monges beneditinos. Mas a idade e a frágil saúde do homem não aconselhavam um severo clima alpino.

O sul da Itália, então? Pensava na Calábria, na Cartuxa de Serra São Bruno, onde também jaz o corpo venerado do mesmo fundador da Ordem, São Bruno. Bento XVI foi em peregrinação à esse lugar sagrado.

Mas na Cartuxa não é o lugar indicado para um ancião necessitado – sobretudo, numa perspectiva futura – de assistência constante. Os monges vivem isolados, em uma pequena casa que, por uma parte, dá ao grande claustro, e por outra, ao huerto-jardim que cultivam eles mesmos. A pequena enfermaria não pode certamente alcançar.

Se me tivessem pedido que indicasse um lugar para o possível ocultamento do Papa emérito, não teria duvidado em apontar à Provença, departamento de Vauclusa, aos pés do Monte Ventoux: para ser exatos, à localidade chamada Le Barroux. Aqui não só a temperatura é ideal e a paisagem encantadora mas que também, desde 1970, surgiu uma abadia de tal modo estimada por Joseph Ratzinger que, como cardeal, com frequência passava alguns dias, ou seja incógnito ou de visita oficial.

Com efeito, o fundador, dom Gérard, não aceitando que também os beneditinos, depois do Concílio, tivessem que abandonar o latim para a liturgia, tinha deixado seu monastério para criar um que continuasse a Tradição e retornasse ao severo respeito pela Regra.

Aqui o canto Gregoriano é executado com tal perfeição que as gravações em CD são apreciadas em todo o mundo e são muitos os jovens que se somam como noviços, atraídos pela austeridade da vida.

Tendo eu também frequentado esse lugar de extraordinária fascinação, soube pelos Superiores que, primeiro o cardeal e depois também o Papa, confirmaram que aquele poderia ser o lugar para seu refúgio final.

E, em troca, eis aqui um provisório Castel Gandolfo e , talvez definitivos, jardins do Vaticano.

O Papa emérito fez compreender que esta proximidade física ao sepulcro de Pedro é um sinal de que certamente não deixa a Igreja, que continua trabalhando para ela com o serviço da oração.

Problemas de convivência, fez também entender, não existirão, dada sua vida retirada. O problema parece segundário mas não é, como bem sabe quem conhece o ambiente eclesial, com suas particularidades.

É claro que, por parte do Papa Francisco, haverá total acolhida, qualquer que seja a escolh de seu predecessor, mas é provável que no encontro privadíssimo de hoje se falará também deste aspecto inédito em uma Igreja que, em dois milênios, acreditava ter experimentado tudo.

Tudo, mas não no singular “condomínio”, nos escassos quilômetros quadrados da Cidade do Vaticano, de um Pontífice emérito e de um reinante.

(Trad. del italiano: La Buhardilla de Jerónimo)

Gostou desse artigo? Comente-o com teus amigos e conhecidos:
http://religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=28366

publicado por emtudoavontadedeus às 18:13
link do post | comentar | favorito
 O que é? |  O que é?

. logotipo sapo

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Himno de La Liturgia de l...

. O menino que conseguiu fa...

. Ou se está com Jesus, ou ...

. Há homens que dizem: se D...

. «Poderemos ficar no céu, ...

. Advertência da incompatib...

. A parte mais bonita, a pa...

. "A imensidade de Deus é a...

. Médico ao remover seus ov...

. A MELHOR CANÇÃO PARA DEUS...

.arquivos

. Abril 2015

. Março 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Agosto 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Agosto 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.contador de visitas

estatisticas gratis

. logotipo sapo