Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

"Eu sou Catarina"

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"Eu sou Catarina"

Gonzalo Abadie - 18 janeiro 2013 - religionenlibertad.com
Santa Catarina de Sena (IV)

“Eu sou Catarina”

A vida de Catarina, como a de todo santo, é surpreendente. Sua amizade com Deus lhes faz alcançar alturas admiráveis e também conhecer grandes sofrimentos. A humanidade, neles, se enche de grandeza, e por sua vez, de pequenez.

A Mãe

Desde 1378, com apenas 30 anos, a fama de santidade de Catarina de Sena tinha repassado os confins de sua cidade, e só o seu nome já era venerado e respeitado em toda parte, tanto nos círculos mais elevados do poder como entre os mais populares e humildes. Sua presença suscitava cresciente expectativa e admiração. Vimos como suas constantes responsabilidades, missões e encargos, em geral convites para que mediasse a paz entre opositores ou poderes inimigos, a conduziam a outras cidades de Itália, e inclusive fora dela, e somente ia acompanhada por um nutrido grupo de “mantelatas” –de irmãs dominicanas como ela, distinguidas pelo manto negro-, entre as quais se encontrava Lapa, sua mãe, a quem chamavam “Avó” porque Catarina era conhecida como a “Mãe”, mas também por vários frades e sacerdotes, todos pertencentes à família de São Domingos.

Depois de sua intervenção nos acontecimentos que derivaram no retorno do Papa Gregório XI de Avinhão à Roma, Catarina, também regressou à Sena, se encontrou com Nanni de Ser Vanni, um ex-bandido cujo destino tinha mudado no dia que se encontrou com a santa, lhe tinha obsequiado com um castelo, uma fortaleza imponente nos entornos de Sena, de onde podiam se desfrutar dos esplendores e silêncios das campinas, e que Nanni desejava que se convertesse em um monastério feminino. A proximidade de Catarina na região, moveu diligentemente à duas amargas facções da influente família senense dos Salimbeni para arriscar a oportunidade da paz, depois de tantas décadas de divisão, de ferozes lutas, rincões obscuros e tragédias infligidas, pondo-se nas mãos desta já experimentada embaixadora, que, uma vez mais, levou a bom termo seus ofícios de pacificadora.

Enfermos e pecadores

Não faltavam, nestes longos e extenuantes deslocamentos da mantelata e sua comitiva, a chegada de enfermos de todo tipo, como na ocasião, em que lhe trouxeram um homem acorrentado, extremamente violento e que proferia indiscriminadamente toda sorte de palavrões e insultos. Trouxeram-no em uma carruagem, mantendo uma prudente e preventiva distância com o endemoniado. Porém Catarina se aproximou com naturalidade, estranhando que tivessem amarrado aquele infeliz, e pediu que o libertassem imediatamente, e lhe proporcionassem um bom prato de comida. Neste ponto o homem já era pura mansidão. A graça de Deus acompanhava Catarina, que curava muitos enfermos.

Sua presença imprevista em um lugar, como nos dias em que visitou o monastério de Santo Antonino, atraia todo o mundo. As pessoas não perdiam a oportunidade, e se deslocavam pelos vales para ir rapidamente ao seu encontro, “como se respondessem ao som de uma trombeta misteriosa”, segundo palavras de seu confessor: “Vinham para vê-la, não pretendiam que falasse”. Sucedia então que as pessoas se comoviam ao apertar suas mãos, ao receber uma palavra, ao receber seu olhar ou tão somente de tê-la ali, e sentiam a necessidade de confessar seus pecados. Catarina estava acompanhada por oito sacerdotes, os quais, não obstante, eram oprimidos pelos repentinos penitentes, e apesar de que pediam reforços, debviam permanecer horas e horas para derramar o perdão de Deus entre todas aquelas pessoas. O Papa tinha concedido licença para confessar todo o grupo de sacerdotes que rodeavam Catarina em suas viajens. Naquele tempo, o sacramento da reconciliação estava geralmente reservado unicamente os bispos.

Não correrá perigo

A tensa situação de enfrentamento com o Papa desatada e liderada pela cidade de Florença continuava como uma pedra no sapato de Gregório XI. Dada a situação explosiva entre os bandos opositores entre si, as mudanças de órgãos de poder, os interesses em jogo, a má vontade radicalizada, e a sensibilidade política a flor de pele, o Santo Padre considerava um risco enviar um emissário à Florença, qualquer que fosse, para buscar o caminho da reconciliação. Qualquer que fosse, exceto, claro, Catarina de Sena: “é tida com tanta veneração que creio que não correrá perigo nenhum”, disse. E ali marcharam Catarina e alguns dos seus, a Avó entre eles. Assim começava o ano de 1378. Catarina permaneceu sete meses em Florença.

No começo de suas gestões de paz encontraram boa acolhida no enigma dos tênues e tensos equilíbrios da frágil política florentina. Mas logo principiaram as intrigas entre os grupos de poder, alguns dos quais, invocando o nome de Catarina, faziam ações prejudiciais contra terceiros, com o fim de obter sórdidas vantagens ou resolver velhas brigas, ou reavivar ódios inveterados, e esses terceiros, se sentiam injustamente perseguidos e presos de novas arbitrariedades. Inteirada a própria Catarina buscou por todos os meios declarar sua inocência e denunciar as manobras que a envolviam e das quais era inocente. O clima na ciudad se reaqueceu até o extremo, e ninguém mais podia controlar a situação. Em tais circunstâncias, quando estala a revolta, aqueles que a instigaram e alimentaram com sua astúcia e iniquidade não mais podem canalizá-la.

Eu sou Catarina

Então ocorreu em Florença quando o ódio e a insensatez da turba se levantaram contra o governo da cidade, jogando-o nos dias sucessivos na escuridão da anarquia e da violência desenfreadas. O Papa Gregório, que neste tempo já havia falecido, não tinha advertido que a comissão designada representava um risco muito perigoso inclusive para Catarina, contra quem, depois dos saques, assassinatos e violentos ultrajes, se descarregou a fúria das hordas: “Deem-lhe, deem-lhe a prostituta, à fogueira, façamo-la em pedaços!” Os gritos amedrontaram os guardas que velavam na casa em que se alojava Catarina e seu grupo, e então os guardas se lançaram à rua…

Deixados a mercê da brutalidade, o grupo conseguiu chegar a um horto no alto da cidade. Mas até ali subiu a caterva de enlouquecidos que reclamava sua nova vítima, e irrompendo no horto, cantavam seu nome. Um, agitando a espada, gritou exasperado: “Catarina, Catarina!, onde está?”. Ela avançou até eles com certa majestade e discreção: “Eu sou Catarina”. Então se ajoelhou diante do homemque brandia a espada com temeridade: “Fere-me, se queres, mas te suplico que não faças mal a estes”. O homem, desconcertado, vacilante, diminuto, derrotado… conseguiu dizer: “Vá embora, foge, te digo!”. E Catarina: “Se tens que matar-me, mata-me; mas deixa ir os outros!”.

Foram momentos de indizível emoção no entorno da santa, que mantinha uma serenidade extraordinária. Os facciosos se dispersaram envergonhados. Catarina tinha vencido, e logo se seguiria a paz que lhe tinha demandado provações tão tremendas. Até que não a obteve, não quis abandonar Florença. Só se lamentou de uma coisa no horto, quando entre soluços disse: “Ai de mim! Acreditei que Deus hoje me teria feito feliz!”.
Gonzalo Abadie

Gonzalo Abadie é sacerdote uruguaio. Licenciado em Letras. Tirou um Diploma em Catequese em Bogotá (ITEPAL, 2006). Foi Diretor do Instituto Pastoral de Catequese da arquidiocese de Montevideu (2007–2010), período durante o qual encabeçou e impulsionou a renovação da iniciação cristã, desenvolvendo um audaz projeto catecumenal, o Discipulado para Todos (Dpt), que conta com um itinerário de 75 encontros -destinado tanto à formação de catequistas como à iniciação cristã nas paróquias-, o qual apresentou na primeira Conferência Internacional do Catecumenato celebrada em Paris em julho de 2010. O Instituto Católico de Paris, interessado em conhecer e valorizar a realidade catecumenal praticada no mundo, selecionou o DpT, junto a outras quinze provenientes dos cinco continentes, a maior parte de origem européia. Estimulado pelo trabalho com o DpT, e por sua participação na Semana Internacional Alpha (Londres 2011), se encontra atualmente dedicado à prática e elaboração de um Primeiro Anúncio de 10 encontros, chamado Efetá, que precede e prepara ao DpT, constituindo uma unidade com ele. Atualmente participa também em dois programas radiais de evangelização.

Gonzalo Abadie, xabadx@gmail.com, é autor, editor e responsável pelo Blog Cerca de ti, alojado no espaço da web de www.religionenlibertad.com
Frases de Santa Catarina de Sena
*Basta de silêncios! Gritem com cem mil línguas! porque, por ter calado, o mundo está podre!
*Os trabalhos que passei, passados estão; não os tenho, porque o tempo passou. Os que virão tampouco os tenho; e não estou segura de possuir o tempo que virá, pois tenho que morrer e não sei quando. Só, pois, existe o momento presente, e nada mais.
*Não se demorem nem digam “amanhã o farei”, porque não estão seguros de ter esse tempo.

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publicado por emtudoavontadedeus às 19:33
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