Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

O jesuíta que construiu 145 leprosários, colégios para pobres e casas para soro-positivos na China.

ReligionenLibertad.com

Completa-se um ano da morte do padre Luis Ruiz SJ

O jesuíta que construiu 145 leprosários, colégios para pobres e casas para soro-positivos na China

Chamavam-no de o Anjo de Macau. Era de Gijon e passou mais de 70 anos de sua vida na China.

Cristina Sánchez/Alfa y Omega - 28 agosto 2012 - religionenlibertad.com

Em 27 de julho de 2011, era chamado à Casa do Pai o jesuíta gijonês Luis Ruiz, o Anjo de Macau e de todos os leprosos da China. Ali passou mais de 70 anos, e, por sua morte, deixou um legado de mais de 60 leprosários, casas de acolhida para soro-positivos, e educação para milhares de jovens sem recursos. Seus amigos mais próximos o recordam como «um homem cujo sorriso tranformava os corações».

O padre Luís com um ancião (a eles atendia especialmente) «Sorrir, amar, servir e esperar no Senhor», assim define o padre Luís seu sucessor à frente da missão em Macau, o padre jesuíta argentino Fernando Azpiroz.

Asturiano, nascido em Gijon em 1913, o padre Luís Ruiz soube desde o princípio de sua vida que sua missão não ia ser simples: expulso da Espanha em 1931 por pertencer à Companhia de Jesus, chegou à China em 1940. Seu primeiro trabalho foi visitar os centros de missão na diocese de Anking, na ocupação japonesa. Como não havia transporte, caminhava 70 quilômetros por dia, algo que continuou fazendo toda sua vida: «Sempre peregrinava pelos caminhos mais remotos, onde vivia gente às quais ninguém chegava nunca», conta seu amigo e companheiro Alejandro Cuervo-Arango.

«Ele sempre voltava a ver as pessoas isoladas, porque sabia que ali lhe esperava o Senhor». Quando não mais podia chegar até eles, eles iam a ele.

Sua estadia na China mudou radicalmente quando as tropas comunistas chegaram, em 1949, a Anking, fecharam o centro de missão e encarceraram o padre e outros jesuítas. No cárcere adoeceu com febre tifóide e foi expulso do país.

Enfermo e pobre, em Macau
O padre Luís se refugiou em Macau em 1951, que na época era uma cidade excesivamente pobre, onde iam chegando os chineses do norte que fugiam das tropas comunistas. Ali começou uma etapa difícil para o jesuíta, que recordava -ao contar sobre sua missão em viagens pela Europa- como os refugiados «chegavam com nada. No meio deles, me encontrei, sem dinheiro para ajudar-lhes».

Uma atitude que, diz o padre Fernando Azpiroz, «é o que mais gostaria de salientar: era muito consciente de seus limites. Seu mandarim era muito pobre, pelo que muito poucas pessoas entendiam o que queria dizer. Além disso, no começo da missão na China era uma pessoa muito limitada fisicamente. Necessitava que o levassem de um lado para o outro, como um menino. Mas nunca se rebelou; ao contrário, os vivia como sua força, quase como uma bênção».

Esse abandono nas mãos de Deus também o recorda seu sobrinho, Dom Jesus Carrascosa, iniciador do movimento Comunhão e Libertação na Espanha, que conheceu quando tinha 35 anos: «Sempre me dizia: Ainda tens pouca fé, porque te preocupam muitas coisas».

Alimentar seus corações
Recordava o padre Azpiroz na homilia do numeroso funeral, que teve lugar em 3 de agosto de 2011, que quando o padre Ruiz chegou a Macau, «muitos estavam enfermos, sozinhos, famintos...; ele também estava enfermo, e era pobre».

Mas não abrandou seu empenho em ajudar e moveu todos seus contatos para obter alimentos. «Começou por dar algo de arroz às pessoas que se aproximavam de sua casa, mas sabendo que não era suficiente alimentar só seus estômagos. Havia que alimentar também seus corações. Para isso, decidiu reabrir a antiga igreja de Santo Agostinho, para rezar e cantar juntos», continuou o padre Azpiroz.

«Dar o Catecismo na noite era meu trabalho mais importante», dizia o padre Ruiz. Foi assim como descobriu «que não importava quantas pessoas se aproximavam para receber arroz; sempre dava», explicou também o padre Azpiroz no funeral.

«Aprendeu que confiar em Deus significava também confiar nos homens. Deu-se conta de que as pessoas, não importa quão ricas ou pobres sejam, tem o desejo de ajudar os demais. Só necessitam uma oportunidade para fazê-lo».

O padre Luis, especialista em buscar e encontrar amigos e colaboradores, conseguiu fundar a Casa Ricci, o início de Cáritas Macau, onde chegou a atender mais de 30.000 refugiados, sem perguntar de onde vinham ou qual era sua identificação política, o que lhe custou pagar um alto preço. Uma vez ajudou um estudante que participou do movimento da praça Tianamen. Em represália, o Governo chinês negou durante dois anos o visto para entrar no país.

«Isto foi o que mais me atraiu no padre Ruiz quando cheguei a Macau, em 2005», conta hoje o padre Azpiroz: «A força dessa simplicidade que sabe que o Senhor constrói grandes coisas através de pequenos passos que damos seguindo suas inspirações».

Confirma isso seu sobrinho, Carrascosa: «Meu tio sabia que, através da ajuda imediata, podia dar às pessoas o que verdadeiramente necessitavam: conhecer Cristo. Ele servia aos pobres por amor a Deus, não por ideologia; por isso, perseverou».

O tempo da lepra
Tinha mais de 70 anos quando soube da existência da ilha de Dajin, onde havia uma colônia de leprosos. Ele mesmo descreve em uma carta seu primeiro encontro: «Queria dar-lhes um aperto de mãos, mas muitos não tinham mãos. Fiquei surpreso com tão imensa miséria como se evidenciava , e senti o tremendo abandono em que viviam».

E começou seu prodigioso trabalho com os leprosos da China. Levou comida, alojamento, água e cuidados médicos às pessoas de Dajin. Mas descobriu que não bastava, e que os pacientes necessitavam de carinho. Chamou as Irmãs da Caridade de Santa Ana, que já trabalhavam com ele em Macau, para viverem na ilha. 5 anos depois, aquele centro triste e abandonado mudou seus enfermos em pessoas dignas e transbordantes de alegria.

A voz de que existia um Anjo que cuidava dos leprosos se estendeu rápido por toda China. Assim começou seu itinerário de fundação e ajuda à leprosários -chegariam a 145- pelas áreas remotas das montanhas. Em menos de 10 anos, mais de 90 Irmãs decidiram deixar seus lugares e comunidades para ir servir e viver com as pessoas infectadas pela lepra. Dez anos mais tarde, o padre Ruiz, com mais de 90 anos, faria às Irmãs outro novo convite: ir servir os novos leprosos, as pessoas com aids, em um centro de acolhida.

O sorriso em seu rosto
Nos seus quase 98 anos, em 26 de julho de 2011, em seu quarto da Casa Ricci, «Deus nosso pai o encontrou um pouco cansado e lhe chamou», conta o padre Alejandro, que recorda que, «em sua pessoa, os homens encontravam Deus». E alude a uma razão sobre todas as demais: «O sorriso em seu rosto, que transformava as dores de quem chegava até ele e convertia em ternura e fortaleza os corações mais endurecidos».

Hoje, a Casa Ricci está nas mãos do padre Azpiroz, que, um ano depois do falecimento do Anjo de Macau, sente «uma maior responsabilidade, pela tensão de querer ser fiel ao seu carisma. Mas tudo foi mais simples do que imaginava, e, sem dúvida, o trabalho que o padre Ruiz faz no Céu tem muitoo a ver».

O padre Luís deixou na China o legado de 64 leprosários, 5 lares para soro-positivos e a educação de uns 1.500 estudantes de famílias pobres. «Ele começou um movimento que hoje permite que muitos, incluídas pessoas do Governo, possam se aproximar dos infectados pela lepra e pelo HIV».

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publicado por emtudoavontadedeus às 22:32
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